
"Aquela conchinha era pequena.
Ternura tinha sua casquinha branquinha com manchinhas amarelas.
Delicada por dentro onde seu coraçãozinho batia forte.
Uma conchinha simples de ser ver, mas sua simplicidade a tornava a mais bela das conchas.
Tinha sentimentos puros.
Cruzava seu caminho com muitas outras espécies:
raras, gigantes, minúsculas, brilhantes, foscas, engraçadas, curiosas, bizarras, camufladas,
enroladas, desengonçadas, grudentas, machucadas e perfeitas.
Para aqueles olhinhos eram as coisas mais lindas e belas que podia se ver, ela não fazia nem um
tipo de acepção.
Admirava a vida.
Dava aula de simplicidade. Todos sabiam que sua transformação foi um milagre e sua missão era
o sentido de sua vida.
Algumas conchas quando nascem são formadas de duas partes sutilmente iguais e seguramente
firmes, elas entram na vida com seus punhos fechados simplesmente protegendo seu interior
delicado.
Existem algumas de formas assimétricas com seus interiores parecidos com espirais.
Apelidada carinhosamente de “caracóis”.
O tempo de vida de um ser tão sensível pode ser muito curto.
Aconteceu que numa oportunidade
do destino o tempo foi alterado com muito mistério pelo Criador.
Usando toda sua habilidade de apreciar alguém ternura explorando as praias do litoral Sul,
deparou com um ser tão silencioso que lhe chamou atenção.
Entendia que o silencio é uma grande virtude, mas o silencio daquele ser era diferente.
A ausência de palavras diante do mar é muito compreensível, a imensidão deixa muitos tentando
definir onde é o inicio, o meio e o fim, causando um delicioso momento de reflexão.
Muitas hipóteses ela imaginou, mas pode perceber que ele não tinha audição.
Ouvir é uma dádiva, e ouvir a natureza um privilegio.
Ternura já havia conhecido alguns animais que nasceram com deficiência física, alguns peixes
que foram geneticamente prejudicados por uma infecção causada pela poluição no mar.
Ah... Tempos difíceis esses.
Um ser humano delicado teve uma simples febre que pode causar danos irreversíveis.
Muitas conchas depois de viver seu tempo no mar são levadas pelas ondas até a praia, lá
solitárias se desprendem de suas partes, são direcionadas para fazerem parte da praia, algumas
se transformam com o passar do tempo em calcários, outras moradia para outros seres e
parasitas, outras tem a sorte de encontrar sua metade novamente para ficarem ali respeitando o
indo e vindo das ondas, admirando o céu, os pássaros, a lua, o sol, as pessoas, a própria natureza.
Mas o mais belo é ver as cores, as formas diferenciadas, de todas as conchas embelezando as
praias.
Os olhos daquela sensível pessoa o levaram a uma concha bem
grande de forma “caracol”.
No coração de Ternura uma mensagem ela tinha a transmitir.
A força do mar era tão real, a energia no ar era tão intensa, que pensamentos se cruzaram
misteriosamente naquele dia.
Uma surpreendente conversa de duas almas na beira do mar.
Ler a mente não era difícil pra quem acostumado estava a ler os lábios e gestos de outras
pessoas.
Não existia diferença naqueles seres, o sentimento que Ternura deixava brotar em seu coração
era de solidariedade. Ela queria que as perguntas chegassem àqueles ouvidos, mas pode ouvir ela
mesma a resposta em olhares e gestos.
Ele explicou que a vida tem modos especiais de fazer perguntas e que compreender as respostas
que não são tão exatas é uma forma de conhecer a si mesmo.
Intrigada Ternura imaginava como seria uma mente com ausência de sons.
Você pode aprender a ouvir a música da vida que existe dentro de você.
_ como assim? -indagou Ternura.
Isso ocorre numa jornada de auto-descoberta, aprendendo a deixar suas dificuldades pra traz
olhando pra frente encarando todos os desafios de superações por viver com uma mera
deficiência.
O dia-a-dia nos ensina muitas coisas.
Naquele dia dois seres usufruíam da sabedoria oferecida pela natureza.
Estavam convictos que
seus pensamentos eram mais uma forma de expressão.
A ausência das palavras foi mais uma forma de entender a vida.
Acrescentou-s entre eles uma melodia simples e harmoniosa, corações pulsando, a respiração
tranqüila, e pensamentos enriquecidos com cumplicidade e empatia.
Com muito carinho Ternura estabeleceu um contato muito precioso com outra concha.
Sem hesitação as águas cooperaram formando uma onda de louvores ao Criador, a natureza e ao
homem.
Um toque suave do vento trouxe uma surpresa para aquele jovem especial.
A concha foi delicadamente levada até seus ouvidos.
Uma atenção curiosa e sem palavras possuía aquele momento.
Ele a encostou sob seus lóbulos e pode ouvir o som do mar gravado naquela concha.
Um som emocionalmente harmonioso e milagrosamente inesquecível, ouvir uma sinfonia da
natureza uma emoção descrita com delicadas lágrimas que rolavam em olhos encharcados de
emoção.
Não havia preocupação, problema, diferença ou até mesmo deficiência apenas uma emoção que
durou tempo suficiente pra todas as conchas de forma “caracol” levar em seus espirais aquele
suave som do mar.
O mais incrível dessa historia é que até hoje se pode ouvir, mas só ouvem aqueles que têm os
ouvidos sensíveis da alma para escutar...
( Parte de meu livro. "As Conchas mais Belas", logo estará disponível)
.Priscila Lima.